Agricultura
Como previsto, Selic cai, mas juro de 14% mantém agronegócio sob forte pressão
Agricultura
A redução da taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, anunciada nesta quarta-feira (05.08), traz algum alívio ao agronegócio, mas está longe de resolver o aperto financeiro enfrentado por produtores rurais. Mesmo com a decisão, a Selic permanece em 14% ao ano, patamar que encarece o custeio, dificulta a renegociação de dívidas e adia investimentos em máquinas, irrigação, armazenagem e tecnologia.
O corte foi aprovado por unanimidade pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC). Foi a quarta redução consecutiva e levou os juros ao menor nível desde março de 2025. O BC, porém, não indicou se repetirá o movimento na reunião de setembro e afirmou que manterá a política monetária em nível restritivo para conduzir a inflação à meta.
Para o produtor, a queda não significa uma redução automática de 0,25 ponto percentual em todos os financiamentos. As operações contratadas com taxas fixas e recursos controlados, como parte das linhas do Plano Safra, mantêm as condições estabelecidas no contrato. O efeito tende a aparecer primeiro nos empréstimos com juros vinculados ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI), nas linhas livres dos bancos e em operações feitas fora do crédito rural oficial.
A redução também pode diminuir, gradualmente, o custo de captação das instituições financeiras e abrir espaço para juros menores em novos contratos. O resultado dependerá, porém, da concorrência entre os bancos, do risco atribuído a cada produtor, das garantias apresentadas e das condições de mercado.
Isan Rezende
Na prática, um recuo de 0,25 ponto percentual representa uma economia aproximada de R$ 2,5 mil por ano em uma dívida de R$ 1 milhão, caso a redução seja integralmente repassada. O valor pode ajudar o fluxo de caixa, mas é pequeno diante do custo total de uma operação sujeita a juros próximos de 14% ao ano ou superiores.
O presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), Isan Rezende, avalia que a decisão aponta na direção correta, mas produz um efeito ainda limitado sobre a situação financeira do campo.
“Qualquer redução ajuda, especialmente em um setor que depende de crédito para plantar, colher, armazenar e comercializar. Mas não podemos confundir o início de um alívio com a solução do problema. Uma Selic de 14% continua incompatível com a realidade de muitos produtores, que enfrentam margens menores, perdas climáticas e dívidas acumuladas de safras anteriores”, afirma.
Segundo Rezende, a manutenção dos juros em nível elevado afeta principalmente os produtores que não conseguem acessar recursos subsidiados e precisam recorrer ao crédito livre, às revendas de insumos ou às Cédulas de Produto Rural (CPRs).
“O produtor que está fora das linhas controladas paga a taxa de mercado acrescida do risco da operação. Em muitos casos, o custo final fica muito acima da Selic. Isso reduz a capacidade de investir, dificulta a recuperação financeira das propriedades e pode levar ao corte de tecnologia justamente quando o campo precisa produzir com mais eficiência”, diz.
Rezende ressalta que o corte também não substitui medidas específicas para produtores atingidos por eventos climáticos ou pela queda de rentabilidade.
“O setor precisa de uma combinação de juros menores, crédito efetivamente disponível, seguro rural e mecanismos de renegociação que considerem a capacidade de pagamento de cada atividade. Reduzir a Selic é importante, mas o produtor precisa sentir essa queda na agência bancária e nas condições oferecidas para financiar a próxima safra”, acrescenta.
O Plano Safra 2026/2027 prevê R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, destinados a custeio, comercialização e investimento. Nas linhas controladas, as taxas são definidas pelo governo e não acompanham imediatamente cada mudança da Selic. No Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), por exemplo, a taxa máxima está em 9% ao ano, enquanto outras modalidades possuem juros diferentes conforme a finalidade e o perfil do beneficiário.
Já nos recursos livres, que têm participação importante no financiamento das grandes propriedades e das empresas da cadeia agroindustrial, a Selic exerce influência mais direta. Se o ciclo de cortes continuar, poderá reduzir o custo de capital de cooperativas, frigoríficos, tradings, revendas, indústrias de insumos e fabricantes de máquinas, com reflexos posteriores sobre os produtores.
O alívio chega em um momento de deterioração da capacidade de pagamento no campo. Levantamento da Serasa Experian mostra que a inadimplência da população rural alcançou 8,8% no primeiro trimestre de 2026, alta de 1,2 ponto percentual em relação ao mesmo período de 2025. O índice considera dívidas vencidas há mais de 180 dias e relacionadas à atividade agropecuária.
A continuidade da queda dos juros também dependerá do comportamento da inflação, das contas públicas e da atividade econômica. O Banco Central projeta inflação de 5,1% em 2026 e de 3,8% em 2027, ainda acima do centro da meta de 3%. Por isso, embora a redução desta semana ajude a sinalizar uma mudança de direção, o custo do dinheiro continuará sendo um dos principais obstáculos para o agronegócio nos próximos meses.
Fonte: Pensar Agro
Agricultura
Agro ajuda Brasil a fechar agosto com superávit de R$ 37,7 bilhões
O Brasil encerrou agosto com superávit comercial de R$ 37,7 bilhões, crescimento de 23,8% em relação ao mesmo mês de 2025. O resultado foi sustentado pelo aumento das exportações de soja, café, animais vivos, carne de frango e farelo de soja, além do avanço das vendas da indústria extrativa e de outros segmentos da indústria de transformação.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações brasileiras somaram R$ 169,1 bilhões em agosto, alta de 12,2% na comparação anual. As importações cresceram 9,2% e alcançaram R$ 131,4 bilhões.
A corrente de comércio, que corresponde à soma das exportações e importações, movimentou R$ 300,5 bilhões no mês, aumento de 10,9% em relação a agosto do ano passado.
A agropecuária respondeu diretamente por R$ 37,7 bilhões em exportações durante agosto, crescimento de 11,4%. Esse valor considera os produtos classificados pelo governo como pertencentes à atividade agropecuária e não inclui carnes, farelo de soja, açúcar, sucos e outros itens processados contabilizados dentro da indústria de transformação.
Entre os produtos do campo, o valor das exportações de animais vivos avançou 174,3%. As vendas externas de café não torrado cresceram 24,1%, enquanto a soja, principal item da pauta agropecuária brasileira, registrou aumento de 14%.
A contribuição do agronegócio também apareceu entre os produtos industrializados. As exportações de carne de aves e miudezas aumentaram 40,5%, enquanto as vendas de farelo de soja e de outros produtos destinados à alimentação animal cresceram 36,6%.
O desempenho positivo compensou a retração observada em outras cadeias importantes. As exportações de milho não moído caíram 25,3% em agosto. Também houve redução de 34,7% no mel natural e de 35,7% nas vendas de sementes oleaginosas, grupo que inclui produtos como girassol, gergelim, canola e algodão.
Na indústria de transformação, o valor das exportações de carne bovina fresca, refrigerada ou congelada recuou 19,7% em agosto. Açúcares e melaços tiveram queda de 37%. A redução mensal da carne bovina ocorreu depois de um período de embarques elevados e não anulou o crescimento acumulado pelo setor ao longo do ano.
Entre janeiro e agosto, o Brasil exportou R$ 1,28 trilhão, aumento de 10,3% na comparação com os primeiros oito meses de 2025. As importações somaram R$ 997,3 bilhões, com crescimento de 6,1%.
Com isso, o superávit comercial acumulado em 2026 chegou a R$ 282,1 bilhões, avanço de 28,2%. A corrente de comércio alcançou R$ 2,28 trilhões no período, alta de 8,4%.
As exportações classificadas como agropecuárias totalizaram R$ 295 bilhões entre janeiro e agosto, crescimento de 9,5%. O resultado foi favorecido pelo aumento de 81,9% nas vendas de animais vivos, de 15,2% nos embarques de soja e de 15,1% nas exportações de algodão em bruto.
A indústria extrativa exportou R$ 316,9 bilhões nos oito primeiros meses, alta de 19,6%. A indústria de transformação respondeu por R$ 660 bilhões, crescimento de 6,6%.
Apesar da queda isolada de agosto, a carne bovina acumulou aumento de 22,3% nas exportações de janeiro a agosto. O desempenho mostra que o recuo mensal ocorreu sobre uma base de vendas externas ainda elevada no conjunto do ano.
Outros produtos do agronegócio apresentaram resultado menos favorável. As exportações acumuladas de trigo e centeio diminuíram 31,3%, enquanto as de milho recuaram 3,6%. O café não torrado acumulou queda de 13,7%, apesar da recuperação registrada em agosto.
Também houve redução de 35,8% nas vendas externas de sucos de frutas e vegetais e de 28,2% nos embarques de açúcares e melaços durante os oito primeiros meses.
Do lado das compras brasileiras, as importações da agropecuária chegaram a R$ 2,4 bilhões em agosto, crescimento de 7,4%. O aumento foi influenciado por pescado, trigo, centeio e produtos hortícolas.
O valor das importações de pescado avançou 64,8%, enquanto as compras de trigo e centeio cresceram 10,5%. Os produtos hortícolas frescos ou refrigerados registraram alta de 54%. Em sentido contrário, as importações de soja diminuíram 22,2%, e as de frutas e nozes não oleaginosas recuaram 9,3%.
A indústria de transformação concentrou a maior parcela das compras externas, com R$ 123 bilhões em agosto, crescimento de 13,4%. No acumulado do ano, as importações do segmento chegaram a aproximadamente R$ 930 bilhões.
Entre os insumos estratégicos para a produção rural, o valor importado de adubos e fertilizantes químicos caiu 35,9% em agosto. As compras de fertilizantes brutos apresentaram redução de 15,6%.
A queda não significa necessariamente redução equivalente no volume desembarcado, porque os dados também refletem mudanças nos preços internacionais. O movimento pode estar relacionado ainda à antecipação de compras, à formação de estoques, à volatilidade do mercado e ao ritmo de aquisição para a safra 2026/2027.
Os números de agosto reforçam o papel do agronegócio na geração de receitas externas e na sustentação do saldo comercial brasileiro. Ao mesmo tempo, a diferença de desempenho entre as cadeias mostra que o resultado depende tanto da produção nacional quanto dos preços internacionais, do câmbio e das condições de acesso aos principais mercados compradores.
Fonte: Pensar Agro
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