Agricultura
Nova plataforma acelera seleção de trigo resistente a doenças
Agricultura
Uma nova plataforma de genotipagem incorporada pela Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa) reduziu para cerca de 12 horas uma etapa da análise de DNA do trigo que antes levava dias. A automação diminui custos e permite selecionar com mais rapidez plantas associadas à produtividade, à adaptação ao ambiente e à resistência a doenças.
Na prática, a tecnologia deve encurtar parte do trabalho necessário para desenvolver cultivares. Segundo pesquisadores da Embrapa, procedimentos que poderiam consumir um ano agora têm potencial para ser realizados em uma semana, dependendo do volume e do tipo de análise.
O avanço é relevante porque o trigo possui um genoma cinco vezes maior que o humano. Depois do sequenciamento completo da espécie, concluído por um consórcio internacional em 2018, a pesquisa passou a contar com informações mais precisas para localizar variações genéticas de interesse agronômico.
A plataforma permite analisar simultaneamente 384 amostras e 202 marcadores, gerando aproximadamente 80 mil pontos de informação. A equipe dispõe de dados de cerca de 5 mil marcadores moleculares de trigo e 3,5 mil de cevada compatíveis com o sistema.
Esses marcadores funcionam como referências dentro do DNA. Eles ajudam a identificar linhagens que podem carregar características desejáveis e, assim, orientar os cruzamentos realizados pelos programas de melhoramento genético.
Uma das aplicações já em andamento é a busca por maior resistência à brusone, doença capaz de provocar perdas importantes nas lavouras de trigo. Quando um marcador associado à resistência é encontrado em determinada planta, essa linhagem pode ser selecionada para novos cruzamentos.
A análise genética, contudo, não substitui os testes agronômicos. A presença do marcador indica potencial, mas não garante que a planta será resistente. As linhagens ainda precisam ser expostas ao fungo e avaliadas no campo para confirmar seu desempenho.
A plataforma também poderá ser usada para estudar o DNA de microrganismos presentes no solo e relacioná-los ao desenvolvimento da cultura. Outra frente é a identificação de genes ligados às proteínas do glúten, conhecimento que pode apoiar pesquisas de trigo voltadas a pessoas com doença celíaca.
Com a geração mais rápida de dados, os pesquisadores conseguem descartar materiais pouco promissores e concentrar os ensaios nas linhagens com maior potencial. Para o produtor, o resultado esperado é a chegada mais eficiente de cultivares adaptadas, produtivas e menos vulneráveis a doenças.
Fonte: Pensar Agro
Agricultura
Tarifaço vigora a partir de hoje e põe o agro no centro de disputa que vai além do comércio
A tarifa adicional de 25% dos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros entra em vigor nesta quarta-feira (22.07) colocando cadeias do agronegócio no centro de uma disputa que começou longe das lavouras. Mais do que corrigir supostos desequilíbrios comerciais, a medida é utilizada pelo presidente norte-americano, Donald Trump, como instrumento de pressão política sobre o Brasil, tendo como pano de fundo temas como regulação das plataformas digitais, sistemas de pagamento (o nosso Pix), propriedade intelectual e acesso ao mercado de etanol.
A sobretaxa será cobrada dos importadores norte-americanos e se soma às tarifas que já incidiam sobre cada mercadoria. Na prática, o custo adicional pode reduzir a competitividade dos produtos brasileiros, provocar o cancelamento de encomendas e pressionar empresas exportadoras a renegociar preços.
A investigação que deu origem à medida foi aberta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana. O governo dos Estados Unidos acusa o Brasil de adotar práticas que restringiriam o comércio, especialmente no ambiente digital.
O próprio documento que oficializou a tarifa, porém, deixa claro que a legislação permite atingir setores que não tenham relação direta com as práticas questionadas. A justificativa é que uma tarifa abrangente amplia o poder de negociação dos Estados Unidos e cria pressão para que o país investigado modifique suas políticas.
É nesse ponto que o agronegócio passa a funcionar como instrumento de barganha. Enquanto parte da investigação trata de plataformas digitais e meios de pagamento, segmentos como máquinas agrícolas, papel, açúcar e outros produtos agroindustriais ficaram sujeitos à cobrança. Pedidos para retirar esses setores da medida foram rejeitados, embora não haja relação direta entre a produção dessas mercadorias e as regras brasileiras para empresas de tecnologia.
O etanol é a exceção mais evidente, porque aparece diretamente no contencioso comercial. Produtores norte-americanos alegam enfrentar dificuldades de acesso ao mercado brasileiro e pressionam pela redução das tarifas aplicadas pelo Brasil ao biocombustível importado. A sobretaxa sobre o produto brasileiro, portanto, também atende a interesses da indústria de etanol dos Estados Unidos.
O desenho das exceções mostra que Washington procurou preservar mercadorias consideradas necessárias à própria economia. Produtos que poderiam causar desabastecimento, pressionar a inflação ou que não são produzidos em quantidade suficiente pelos Estados Unidos foram poupados. Já cadeias nas quais há concorrência com produtores norte-americanos ou capacidade de exercer pressão sobre Brasília permaneceram expostas.
Para pesquisadores das áreas de comércio e regulação digital, as críticas às regras brasileiras para plataformas também revelam uma disputa por soberania regulatória. O governo norte-americano sustenta que decisões judiciais e novas obrigações impostas às empresas de tecnologia ameaçam a liberdade de expressão. Especialistas brasileiros contestam essa interpretação e afirmam que o país está estabelecendo responsabilidades semelhantes às já adotadas em outros mercados, especialmente na União Europeia.
Nessa leitura, os Estados Unidos procuram proteger empresas de tecnologia sediadas no país contra controles nacionais sobre conteúdo, concorrência, uso de dados e funcionamento dos algoritmos. O Brasil também seria estratégico por seu tamanho e pela influência que suas decisões regulatórias podem exercer sobre outros países da América Latina. Trata-se, contudo, de uma interpretação sobre os interesses envolvidos, e não da justificativa formal apresentada pelo USTR.
Para o agro, a consequência mais imediata não é apenas a cobrança na alfândega. A redução das compras norte-americanas pode alcançar indústrias, usinas, fabricantes de máquinas e fornecedores de matérias-primas. Dependendo da duração da medida, o efeito poderá chegar ao produtor por meio de menor demanda, pressão sobre preços e adiamento de investimentos.
O governo brasileiro contesta as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos e considera que temas internos, como decisões judiciais e regulação de empresas, não devem ser utilizados para impor sanções comerciais. As negociações continuam, mas Washington sinalizou que pretende manter a cobrança enquanto não houver mudanças nas políticas questionadas.
A entrada em vigor da tarifa, portanto, é apenas o começo do impasse. O que está em discussão não é somente quanto os Estados Unidos comprarão do Brasil, mas até que ponto o acesso ao maior mercado consumidor do mundo será usado para influenciar decisões regulatórias brasileiras. Nesse confronto, o agronegócio tornou-se um dos principais pontos de pressão — mesmo quando pouco tem a ver com a origem da disputa.
Fonte: Pensar Agro
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