Cultura
Bem-viver norteia Feira do Livro da Rocha, no bairro do Bixiga em SP
Cultura
Em São Paulo, segue até domingo a 2ª edição da Feira do Livro da Rocha, evento dedicado à literatura no tradicional bairro do Bixiga. São três dias de programação diversa e gratuita.

A feira literária leva o nome da rua onde acontece, a Rua Rocha, e reúne mais de 60 editoras e livrarias, e oferece cerca de 70 atividades. O evento é organizado pela Livraria Simples em parceria com organizações do entorno.
Felipe Roth Faya, um dos organizadores da feira, fala sobre o bem-viver, conceito presente na visão de mundo de povos originários e que norteia o tema desta edição, e comenta também a memória negra no bairro do Bixiga.
“Uma concepção de entender que a gente também é natureza, e de que a gente tem que respeitar os outros, a diversidade, o meio ambiente. O Bixiga é um bairro que preserva um modo de vida que vem desde a época do quilombo Saracura, no território aqui á beira do Rio Saracura, que é um rio atrás da rua da livraria, que preserva esse modo de vida comunitário em que a gente se conhece, conversa com os vizinhos, se ajuda. Tudo isso a gente procura transmitir aqui na feira”.
Além de aulas abertas e bate-papos com escritores, a feira traz a Jornada Literária, que fomenta atividades de escrita com estudantes de escolas públicas da região; e roteiros com passeio por pontos do Bixiga relacionados a livros e também uma viagem pela herança afro-brasileira do bairro.
A feira homenageia a escritora feminista e ativista do Movimento Negro, Thereza Santos, que é celebrada numa exposição, na exibição do documentário Malunga e em mesas de conversa. Felipe Roth Faya comenta a importância de Thereza Santos para o bairro e para o país.
“Carioca, trabalhou na Mangueira, muito ligada ao carnaval. Veio pra São Paulo e aqui fundou um Centro Cultural no Bixiga, onde, depois foi fundado o MNU, o Movimento Negro Unificado. Então, a Thereza foi moradora do Bixiga e é nossa homenageada”.
Entre as atividades voltadas para as crianças, estão os lançamentos da personagem Abayomi da escritora Maria Aline Soares, com contação de história e oficina de bonecas.
A programação completa do evento está no site feiradolivrodarocha.com.br
*Com produção de Bel Pereira
Cultura
90 anos Rádio Nacional: o legado do Repórter Esso no radiojornalismo
A imprensa é análise, o rádio é síntese. A imprensa dirige-se aos que sabem ler. O rádio fala, também, aos que são analfabetos”. Essas palavras são de Heron Domingues, jornalista que apresentou o Repórter Esso entre 1944 e 1962. O noticiário estreou na Rádio Nacional do Rio de Janeiro em agosto de 1941, com a cobertura da Segunda Guerra Mundial. Um ano antes, em março de 1940, a emissora fundada pelo grupo do jornal A Noite havia sido estatizada pelo presidente Getúlio Vargas. 

Numa época em que mais da metade da população brasileira era analfabeta, o rádio conseguiu ampliar o alcance da informação.
Para João Batista de Abreu, jornalista e professor da UFF, a Universidade Federal Fluminense, o Repórter Esso estabeleceu uma relação de confiança com os ouvintes.
“Eu acho que a ideia de credibilidade, talvez seja a coisa mais importante. Até hoje, a gente tem a expressão: deu no rádio. Se deu no rádio, é porque é verdade. Isso é marcante em todas as emissoras. Mas basicamente por conta do Repórter Esso”.
Com o slogan “o primeiro a dar as últimas”, fazendo referência às notícias, o Repórter Esso trouxe a ideia de agilidade e instantaneidade ao rádio, em quatro edições de cinco minutos ao longo do dia, além das edições extras. Antes dele, as informações vinham de recortes do que os jornais impressos já haviam anunciado. Com o Esso, surge uma linguagem própria de radiojornalismo. Marcelo Abud, pesquisador de rádios e professor do tema na Universidade FAAP em São Paulo, destaca Heron Domingues como referência.
“É muito interessante ouvir o manual do Repórter Esso na voz do Heron Domingues, porque ele vai dar essas noções, ele vai dizer, olha, você vai acordar as pessoas dando notícia, então você precisa passar isso com animação. Não pode ser algo que você fale monotonamente, porque senão ninguém vai querer te ouvir e tudo mais. É uma grande marca”.
Em 1948, Heron Domingues assumiu a Seção de Jornais Falados e Reportagens na Rádio Nacional, a primeira redação voltada ao radiojornalismo no país, com equipe formada por um chefe, quatro redatores e um colaborador do noticiário parlamentar.
Atualmente, a equipe da emissora é bem maior: tem quase 50 pessoas, entre repórteres, editores, produtores, locutores, coordenadores e gerência, que respondem a uma diretoria de jornalismo.
São produzidas três edições do radiojornal Repórter Nacional, os boletins Nacional Notícias, além dos programas jornalísticos Ritmo da Notícia e Alô, Alô Brasil.
Em 2007, a Rádio Nacional passou a ter caráter público e não mais estatal, com a criação da EBC, a Empresa Brasil de Comunicação.
A diretora de Jornalismo da EBC, Myrian Pereira, destaca o compromisso do Radiojornalismo com o interesse social e a cidadania.
“Hoje, como comunicação pública, a nossa missão, claro, é honrar essa tradição de credibilidade com olhar atento ao interesse social, aos direitos humanos e, eu diria, principalmente, à diversidade. O rádio evoluiu, mas a confiança do ouvinte no nosso compromisso com a verdade, com certeza, é o patrimônio da Rádio Nacional”.
O jornalismo da emissora de 90 anos segue com a essência da revolução trazida pelo Repórter Esso, testemunha ocular da história, com foco no interesse da sociedade brasileira e o compromisso com a busca da verdade, da precisão e da clareza, o respeito aos fatos, aos direitos humanos e a diversidade de opiniões.
*Com colaboração de Guilherme Strozzi e Raquel Júnia.
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