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Preferencialmente com pressa

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Nas cidades, observa-se uma curiosa convergência de destinos: todos parecem estar atrasados.Não se sabe ao certo para onde, nem desde quando — mas a impressão é inequívoca. Basta atravessar uma avenida qualquer, dessas largas e generosas como se tivessem sido feitas para que nada as detivesse, para perceber que ali não se transita: avança-se.Avança-se com determinação. E, sobretudo, com urgência — essa forma moderna de convicção.Certa vez, ao deter-me numa esquina, contemplei a cena com a atenção possível, que não é muita, mas às vezes basta. Um motociclista insinuou-se entre dois carros como quem resolve um problema geométrico. Um utilitário, desses que custam o equivalente a uma pequena biografia de trabalho, cruzou em velocidade incompatível com qualquer prudência. E um pedestre, hesitante, calculava não a travessia, mas a sobrevivência — cálculo, aliás, sempre sujeito a revisão.Nada de extraordinário.Há, também, as rotatórias — engenhosas criações urbanas concebidas, em tese, para ordenar o fluxo, mas que, na prática, converteram-se em pequenos palcos de afirmação individual. Ali, a preferência de passagem deixou de ser regra; tornou-se hipótese, aberta à interpretação e, sobretudo, à disposição de cada um em impô-la. Aproxima-se, calcula-se — ou não — e avança-se com a confiança peculiar de quem supõe que ceder é sempre um equívoco. Não raro, dois veículos se encontram nesse mesmo estado de convicção simultânea, produzindo uma breve colisão de certezas. Segue-se a discussão: cada qual persuadido de que ocupava não apenas o lugar correto, mas o lado certo do mundo — o que, convenhamos, excede qualquer demonstração.O insólito seria o contrário.Nessa pressa difusa, há algo de revelador. Não se trata apenas de chegar mais rápido — o que seria compreensível —, mas de uma relação peculiar com o tempo e, por extensão, com o outro.No trânsito, o outro deixou de ser alguém. Converteu-se em obstáculo. Em intervalo. Em incômodo momentâneo entre a partida e um destino que, ao que tudo indica, não admite atraso — embora raramente se saiba explicar por que, e talvez por isso mesmo.Não se ignora que o trânsito, em qualquer parte, comporte tensões. Aqui, contudo, percebe-se um elemento adicional, mais discreto e talvez mais decisivo: a naturalização do risco.Corre-se. Ultrapassa-se. Aproxima-se além do necessário.Tudo isso com uma serenidade curiosa, como se o perigo tivesse sido absorvido pelo funcionamento ordinário das coisas.Não se trata de imprudência episódica. Trata-se de hábito. E o hábito, como se sabe, possui uma virtude particular: dispensa reflexão — e, não raro, ocupa o seu lugar.Talvez haja nisso uma forma peculiar de coerência. Como se cada um, ao volante, se visse autorizado a agir conforme a própria urgência — ainda que à custa de tudo o mais. Vem então à memória um verso de Paulo Leminski:“isso de quererser exatamente aquiloque a gente éainda vainos levar além”No trânsito, ao que parece, já nos leva.Em algum ponto — difícil precisar qual — consolidou-se a ideia de que o tempo próprio vale mais do que qualquer outra variável da equação. Aceita essa premissa, o restante se rearranja com desconcertante facilidade.A preferência converte-se em sugestão. A sinalização, em recomendação. A cautela, em leve excentricidade — dessas que despertam, quando muito, um breve estranhamento.Dessa forma, estabelece-se um acordo tácito, do qual todos participam, ainda que ninguém o tenha formalizado: cada um por si, na medida do possível, e que vença quem chegar primeiro — ou, ao menos, quem não parar.Mesmo diante de acidentes — que não são poucos —, a lógica pouco se altera. Lamenta-se, comenta-se, e, no dia seguinte, retoma-se o curso habitual, com discretas variações de velocidade, mas nenhuma revisão de princípio.Como se o problema residisse sempre no episódio, jamais no padrão. Aqui talvez esteja o ponto mais delicado. Quando o risco deixa de ser exceção e passa a integrar o cotidiano, já não é percebido como risco. Torna-se condição.Nesse cenário, a vida — própria e alheia — passa a ocupar um lugar curioso: não exatamente desprezado, o que seria grosseiro, mas subordinado.Subordinado à pressa, à conveniência e àquela sensação difusa de que interromper, ainda que por um instante, representa uma forma de derrota — e ninguém aprecia perder, sobretudo quando ignora o que está em jogo.Não se afirma que haja, nisso, intenção consciente. A maior parte das condutas humanas prescinde de elaboração moral mais exigente. Basta que funcione. E funciona. Até que deixe de funcionar.Mas, mesmo então, a conclusão raramente alcança as causas. Permanece na superfície, onde os fatos se encerram com rapidez e as responsabilidades se diluem com igual eficiência — o que é sempre confortável.Talvez não seja apenas o trânsito que esteja em questão. Talvez seja o modo como nos deslocamos no mundo. A forma como medimos o tempo.E, sobretudo, o valor que atribuímos ao que pode ser interrompido — inclusive uma vida — em nome de alguns minutos a menos.Não se sabe se chegamos mais rápido.Mas é possível que estejamos aprendendo, com notável consistência, a chegar pior — e, o que é mais grave, a considerar isso perfeitamente aceitável.*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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MPMT abre inscrições para o I Simpósio Mato-grossense de Longevidade

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Estão abertas as inscrições para o I Simpósio Mato-grossense de Longevidade Ativa – Mais Anos, Mais Funcionalidade, que será realizado no dia 1º de outubro de 2026, das 13h30 às 18h, no auditório da Sede das Promotorias de Justiça de Várzea Grande, com transmissão ao vivo pelo canal do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) no YouTube. A iniciativa é promovida pela 34ª Promotoria de Justiça Cível de Cuiabá e pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seção Mato Grosso (SBGG-MT), em parceria com o Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional (Ceaf) – Escola Institucional do MPMT.As vagas são limitadas a 150 participantes presenciais, e as inscrições podem ser realizadas aqui. O evento é destinado a pessoas idosas, familiares, cuidadores, profissionais das áreas da saúde, direito, assistência social e educação, gestores públicos, estudantes, integrantes da rede de proteção à pessoa idosa, representantes da sociedade civil organizada e demais interessados na temática do envelhecimento. A atividade terá carga horária de quatro horas/aula e emissão de certificado mediante registro de presença.Realizado em alusão ao Dia Internacional da Pessoa Idosa, o simpósio tem como objetivo promover reflexões sobre o envelhecimento saudável e a longevidade ativa, aproximando o conhecimento científico da população por meio de uma linguagem acessível e de uma abordagem positiva e contemporânea sobre o envelhecimento. A proposta é estimular a construção de uma sociedade mais preparada para o aumento da expectativa de vida, valorizando a autonomia, a participação social, a funcionalidade e a qualidade de vida das pessoas idosas.Ao longo da programação, especialistas de referência nas áreas da geriatria, gerontologia, assistência social e fisioterapia abordarão temas como o perfil do envelhecimento no Brasil, prevenção do declínio cognitivo, mobilidade, funcionalidade, intergeracionalidade, autonomia, propósito de vida e estratégias para reduzir o risco de demência. O evento também busca combater o etarismo e os estereótipos relacionados à idade, fortalecendo a compreensão da pessoa idosa como sujeito de direitos, escolhas e participação ativa na sociedade. Além disso, pretende ampliar o diálogo entre saúde, justiça, cidadania, políticas públicas e sociedade civil, contribuindo para o fortalecimento da rede de proteção e para a promoção de uma cultura de respeito à pessoa idosa.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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