Opinião
A solidão do empreendedor
Opinião
Por VANESSA SUZUKI
Empreender no Brasil costuma ser associado a liberdade, autonomia e realização pessoal. Mas, por trás da vitrine reluzente das redes sociais e dos números do PIB, existe um silêncio profundo: a solidão do empreendedor. Ela acompanha o brasileiro que decide arriscar seu capital, sua energia e até sua reputação em um ambiente de negócios hostil.
O empreendedor carrega uma responsabilidade que não se mede em planilhas. Empregados esperam salários, fornecedores aguardam pagamentos, clientes exigem qualidade, e o Estado cobra tributos mesmo antes do negócio dar lucro. A família, por sua vez, projeta nele a segurança do futuro. Em meio a tantas expectativas, quem sustenta o próprio empreendedor? Quase sempre, ninguém.
O fracasso, longe de ser visto como aprendizado, é tratado como estigma. O empresário que erra, mesmo tendo arriscado para gerar empregos e riqueza, raramente encontra compreensão. Mas há algo ainda mais corrosivo que a burocracia ou a insegurança jurídica: o preconceito contra o sucesso.
No Brasil, o êxito desperta não apenas admiração, mas sobretudo inveja. Em vez de inspirar, a conquista de um empreendedor é muitas vezes recebida com suspeita, ironia ou hostilidade. O pecado da inveja — tão condenado pela tradição cristã — manifesta-se como ressentimento social, como se todo triunfo fosse uma afronta pessoal aos que fracassaram.
Não raro, o empreendedor sente que não enfrenta apenas a concorrência e o peso das responsabilidades, mas também a torcida silenciosa de quem deseja vê-lo cair.
Basta lembrar o caso de um pequeno comerciante que decide ampliar seu negócio no bairro. Ele emprega vizinhos, melhora a fachada, investe em tecnologia e, aos poucos, começa a prosperar. O resultado poderia ser motivo de orgulho coletivo, mas o que se vê muitas vezes é o contrário: comentários maliciosos, acusações de enriquecimento “fácil”, suposições de que só pode estar envolvido com algo ilícito.
O sucesso, em vez de unir, isola. O próprio comerciante, ao perceber os olhares enviesados e o afastamento de pessoas que antes o cercavam, experimenta a solidão como punição pelo crescimento.
O mesmo se repete com o trabalhador autônomo, que arrisca tudo para abrir seu caminho em um mercado saturado. Pensemos no cabeleireiro que decide sair do emprego fixo para montar seu salão, ou no prestador de serviços que, com esforço, conquista clientes fiéis.
Quando começam a prosperar, muitas vezes já não são vistos como “um de nós”, mas como alguém que “se acha demais”. Amizades esfriam, relações se tornam distantes, e a conquista, em vez de gerar apoio, converte-se em motivo de isolamento. A inveja, novamente, age como corrosão invisível, tornando a vitória um fardo solitário.
A rotina de trabalho sem pausas, o esforço para manter a empresa viva e a permanente sensação de estar “apagando incêndios” acabam corroendo vínculos pessoais.
Muitos relatam a dificuldade de compartilhar suas dores com familiares e amigos, seja para não preocupá-los, seja porque poucos compreendem a intensidade da jornada. A solidão, então, não é apenas prática, mas também existencial.
Enquanto exaltamos a coragem de quem empreende, fechamos os olhos para seu sofrimento silencioso. Um país que deseja crescer precisa cultivar a admiração, não a inveja; o reconhecimento, não o ressentimento.
Afinal, por trás de cada CNPJ há uma pessoa que sonha, luta e sofre — quase sempre em silêncio, e muitas vezes contra a torcida cruel dos que preferem o fracasso alheio à superação própria.
(*) VANESSA SUZUKI é jornalista e anfitriã na plataforma Airbnb desde 2019.
Opinião
O varejo não quebrou, mas a cabeça do cliente mudou
Voltei da Omni Varejo 2026, em João Pessoa, com a cabeça fervendo. Não foi por causa do calor nordestino, mas de uma palestra do publicitário Walter Longo, que me fez repensar quase tudo o que fazemos no comércio cuiabano.
O varejo não está em crise. O que está acontecendo é uma mudança brutal na cabeça do consumidor. Como disse Longo: “Agora, assistimos a uma migração sem precedentes, mas ela é cognitiva, não geográfica.” Seu cliente não mudou de bairro — mudou dentro da própria cabeça. Ele quer respostas rápidas, soluções imediatas. E quem não perceber isso vai ficar para trás.
Nicholas Carr, jornalista, explica que estamos migrando a atividade neural do hipocampo (pensamento profundo) para o córtex pré-frontal (piloto automático). A revista The Economist estima que as distrações digitais custam US$ 650 bilhões por ano aos Estados Unidos. Aqui no Brasil, a conta também é pesada.
A saída? Um modelo de negócio mais leve. Longo foi direto: “O segredo do futuro não está em ter mais, e sim em ser mais leve.” Menos estoque, menos peso, mais flexibilidade. O cliente quer agilidade, e estoque enorme virou âncora.
No marketing, a virada é igualmente radical: “O futuro não está em atingir pessoas em massa, mas em compreender pessoas em frações.” Pessoas não são — pessoas estão. Tratar o cliente como ficha cadastral é coisa do passado.
E a cereja do bolo: “Gerir uma empresa daqui para frente significa entender como funcionam as pessoas, e não apenas o negócio.” A economista inglesa Dame Minouche Shafik resume bem: “No passado, empregos dependiam de músculos; agora, do cérebro; no futuro, vão depender do coração.”
Mas não dá para ignorar o presente: juros nas alturas, inadimplência que não dá trégua e um fenômeno que vem arrasando milhares de pessoas no país, apostas esportivas e jogos online passaram a disputar espaço no orçamento dos brasileiros, além do custo de capital corroendo margens. A realidade é dura e fingir que ela não existe é receita para o fracasso.
E é justamente aí que mora a oportunidade. Estoque enxuto não é só modernidade: é menos dinheiro parado pagando juros altos. Atendimento personalizado não é só marketing: é fidelizar quem já compra, mesmo com crédito restrito. Gestão com coração não é só empatia: é time engajado, que vende mais e gera indicações — o melhor remédio contra a queda de consumo.
E a inadimplência? A saída é usar tecnologia para analisar o perfil de crédito em tempo real, oferecer prazos que cabem no bolso e recuperar clientes com abordagem humana. Porque coração também se usa na hora de negociar.
Os lojistas que vão crescer não são os que ignoram os juros, são os que aprendem a dançar com eles. Margem apertada exige giro rápido. Capital caro exige criatividade. Cliente endividado exige oferta inteligente, não apenas desconto.
Como presidente da CDL Cuiabá, saio do evento convicto: nossos desafios são reais, mas nossas armas também. Temos tecnologia, conhecimento e, acima de tudo, um comércio que já provou que sabe renascer.
O varejo cuiabano vai ser mais leve, mais humano e mais esperto. Vai usar a crise como combustível para inovar.
Não tem mais volta: a cabeça do cliente já mudou. Os juros estão altos, a inadimplência existe, mas nossa capacidade de reinventar é maior. Agora é a nossa vez — e vamos sair dessa maiores do que entramos.
*Júnior Macagnam, empresário da moda e presidente da CDL Cuiabá
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