Opinião
Resistir e conquistar: a força do empreendedor cuiabano
Opinião
Júnior Macagnam*
Empreender é viver intensamente cada desafio e cada conquista. No próximo dia 5 de outubro, temos uma data muito especial no calendário: o Dia do Empreendedor. Como presidente da CDL Cuiabá, quero dividir com vocês algumas reflexões que carrego depois de anos de atividade no varejo cuiabano.
Empreender é como se apaixonar. Aquela vontade que dá frio na barriga, um projeto que não sai da cabeça, a emoção do primeiro CNPJ. Tenho a convicção de que isso é familiar para todos nós. Porém, a paixão inicial é só o começo. O que mantém um negócio de pé é a capacidade de enfrentar as tempestades e, ao mesmo tempo, celebrar as vitórias.
Passamos por fortes tempestades. A minha geração levou o primeiro grande susto no período do governo Collor, quando poupança, investimentos e contas bancárias foram confiscados, deixando todos sem recursos. Mais recentemente, a pandemia causou um grande impacto. Foram quatro meses com a loja fechada.
Mas há momentos emocionantes, como quando lançamos uma marca própria, como a Raphael Benetti, quando batemos metas ou ampliamos o número de lojas. Saber ser resiliente e saber comemorar cada conquista são fundamentais na história de cada empreendedor.
Na CDL Cuiabá, acompanhamos diariamente a realidade do empreendedor cuiabano. Sei bem das dificuldades que enfrentamos: a burocracia que complica, os impostos que pesam, a concorrência que exige cada vez mais, os desafios do online, a baixa produtividade, a ansiedade por capacitação, os juros nas alturas e a concorrência desleal incentivada.
Mas também testemunho a incrível capacidade de reinvenção de todos nós. Cada um no seu momento, mas sempre evoluindo. O verdadeiro empreendedor é como aquela pessoa que ama de verdade: conhece cada ponto forte, mas também cada fraqueza do seu negócio. E trabalha todos os dias para melhorar, para crescer, para servir melhor nossa comunidade.
O que mais admiro em nós, empreendedores, é que entendemos que o sucesso vai além dos números. Está na forma como tratamos nossos funcionários, no cuidado, na emoção e na experiência com cada cliente, na participação ativa no desenvolvimento da nossa cidade.
Cuiabá cresce e se transforma graças ao trabalho de todos nós. São os pequenos e médios empresários que geram empregos, que movimentam a economia, que dão vida ao comércio e aos serviços da nossa cidade. Respondemos por aproximadamente 70% do PIB municipal, segundo dados do IBGE. Além disso, geramos cerca de 60% dos empregos formais da cidade.
Neste 5 de outubro, quero deixar meu abraço fraterno a cada empreendedor que acorda cedo, que enfrenta desafios e que não desiste diante das dificuldades. A CDL Cuiabá, fazendo jus ao seu propósito de unir forças para transformar Cuiabá no melhor lugar para empreender e morar, está e estará sempre ao lado de todos, oferecendo apoio, representatividade e ferramentas para juntos construirmos um comércio e serviços cada vez mais fortes.
Empreender é acreditar todos os dias que vale a pena.
Parabéns a todos nós, empreendedores! Que continuemos escrevendo a história de Cuiabá com trabalho, dedicação e muita paixão pelo que fazemos. Que nunca nos falte coragem para atravessar os momentos de resiliência e inspiração para multiplicar os momentos de conquista.
*Júnior Macagnam é empresário da moda há mais de 20 anos e atualmente preside a Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá (CDL Cuiabá)
Opinião
O varejo não quebrou, mas a cabeça do cliente mudou
Voltei da Omni Varejo 2026, em João Pessoa, com a cabeça fervendo. Não foi por causa do calor nordestino, mas de uma palestra do publicitário Walter Longo, que me fez repensar quase tudo o que fazemos no comércio cuiabano.
O varejo não está em crise. O que está acontecendo é uma mudança brutal na cabeça do consumidor. Como disse Longo: “Agora, assistimos a uma migração sem precedentes, mas ela é cognitiva, não geográfica.” Seu cliente não mudou de bairro — mudou dentro da própria cabeça. Ele quer respostas rápidas, soluções imediatas. E quem não perceber isso vai ficar para trás.
Nicholas Carr, jornalista, explica que estamos migrando a atividade neural do hipocampo (pensamento profundo) para o córtex pré-frontal (piloto automático). A revista The Economist estima que as distrações digitais custam US$ 650 bilhões por ano aos Estados Unidos. Aqui no Brasil, a conta também é pesada.
A saída? Um modelo de negócio mais leve. Longo foi direto: “O segredo do futuro não está em ter mais, e sim em ser mais leve.” Menos estoque, menos peso, mais flexibilidade. O cliente quer agilidade, e estoque enorme virou âncora.
No marketing, a virada é igualmente radical: “O futuro não está em atingir pessoas em massa, mas em compreender pessoas em frações.” Pessoas não são — pessoas estão. Tratar o cliente como ficha cadastral é coisa do passado.
E a cereja do bolo: “Gerir uma empresa daqui para frente significa entender como funcionam as pessoas, e não apenas o negócio.” A economista inglesa Dame Minouche Shafik resume bem: “No passado, empregos dependiam de músculos; agora, do cérebro; no futuro, vão depender do coração.”
Mas não dá para ignorar o presente: juros nas alturas, inadimplência que não dá trégua e um fenômeno que vem arrasando milhares de pessoas no país, apostas esportivas e jogos online passaram a disputar espaço no orçamento dos brasileiros, além do custo de capital corroendo margens. A realidade é dura e fingir que ela não existe é receita para o fracasso.
E é justamente aí que mora a oportunidade. Estoque enxuto não é só modernidade: é menos dinheiro parado pagando juros altos. Atendimento personalizado não é só marketing: é fidelizar quem já compra, mesmo com crédito restrito. Gestão com coração não é só empatia: é time engajado, que vende mais e gera indicações — o melhor remédio contra a queda de consumo.
E a inadimplência? A saída é usar tecnologia para analisar o perfil de crédito em tempo real, oferecer prazos que cabem no bolso e recuperar clientes com abordagem humana. Porque coração também se usa na hora de negociar.
Os lojistas que vão crescer não são os que ignoram os juros, são os que aprendem a dançar com eles. Margem apertada exige giro rápido. Capital caro exige criatividade. Cliente endividado exige oferta inteligente, não apenas desconto.
Como presidente da CDL Cuiabá, saio do evento convicto: nossos desafios são reais, mas nossas armas também. Temos tecnologia, conhecimento e, acima de tudo, um comércio que já provou que sabe renascer.
O varejo cuiabano vai ser mais leve, mais humano e mais esperto. Vai usar a crise como combustível para inovar.
Não tem mais volta: a cabeça do cliente já mudou. Os juros estão altos, a inadimplência existe, mas nossa capacidade de reinventar é maior. Agora é a nossa vez — e vamos sair dessa maiores do que entramos.
*Júnior Macagnam, empresário da moda e presidente da CDL Cuiabá
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