Opinião
Transformar estruturas: o caminho da educação ao emprego para reduzir desigualdades raciais
Opinião
Por Fábio Sant’Anna*
2190. Esse é o ano em que poderemos, finalmente, atingir equidade racial no emprego. A projeção, feita pelo Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), expõe o tamanho do desafio: estamos a 165 anos de distância de um cenário ideal — e necessário — para garantir que profissionais negros tenham as mesmas oportunidades. Essa defasagem histórica mostra que a jornada antirracista exige ação estruturada e imediata.
Falo sobre isso pela posição que ocupo hoje e pela perspectiva construída ao longo da minha trajetória. As transformações que testemunhei no mundo corporativo mostram que avanços são possíveis. Não basta abrir portas; é preciso garantir caminhos. Inclusão plena depende de progressão, desenvolvimento contínuo e oportunidades reais de mobilidade social e econômica. Caso contrário, ampliamos a entrada, mas mantemos o teto no mesmo lugar.
A mudança necessária começa antes do emprego, sobretudo na escola, porque é nesse ambiente onde se formam as primeiras percepções sobre pertencimento, oportunidades e cidadania. E, mesmo assim, ainda falhamos em garantir um ambiente de equidade. Um diagnóstico recente do Ministério da Educação (MEC) revela que apenas 36,2% das redes municipais possuem protocolos específicos para casos de racismo. Crianças e adolescentes negros continuam crescendo em espaços que não estão plenamente preparados para acolher, proteger ou educar para a igualdade.
Isso contrasta com o fato de que o Brasil já possui um arcabouço legal robusto: desde 2003, o ensino da história e cultura afro-brasileira é obrigatório, e desde 2008, a educação das relações étnico-raciais é diretriz nacional. O problema não é falta de leis e garantias, mas sim a falta de implementação. Como lembra Djamila Ribeiro, trata-se de um problema estrutural, que só muda com compromisso coletivo.
A responsabilidade também recai sobre o mercado de trabalho. A escola prepara o terreno, mas é no ambiente corporativo que oportunidades (ou sua ausência) moldam trajetórias. Os dados mais recentes da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) (2º trimestre de 2024) mostram que as mulheres negras seguem como o grupo mais afetado, com desemprego de 10,1%, mais que o dobro do registrado entre homens não negros (4,6%). São 7,5 milhões de desocupados no país, evidenciando que as desigualdades se perpetuam quando não há ação coordenada para interrompê-las.
Por isso, as empresas não podem se omitir. Tenho visto, ao longo da minha experiência, como políticas de diversidade impactam vidas quando deixam de ser discurso e se tornam prática. Acredito que iniciativas de formação, programas de desenvolvimento e ações de inclusão têm ampliado oportunidades para grupos historicamente sub-representados. É um esforço que mostra como a transformação só acontece com intencionalidade e continuidade.
Reduzir desigualdades exige responsabilidade compartilhada. Exige que a escola eduque para a equidade, que a sociedade reconheça seu papel e que as empresas assumam uma postura ativa para corrigir disparidades que não criaram, mas que podem, sim, ajudar a encerrar.
Se o ID_BR projeta 2190 como o ano da equidade racial no emprego, cabe a nós — empresas, governo, instituições e cidadãos — trabalhar para antecipá-lo. Que o mês da Consciência Negra reforce essa urgência: transformar legado em prática, consciência em ação e oportunidade em realidade, muito antes do que as projeções indicam.
*Fábio Sant’Anna é Diretor de Gente, Diversidade e Inclusão na Arcos Dorados
Opinião
O varejo não quebrou, mas a cabeça do cliente mudou
Voltei da Omni Varejo 2026, em João Pessoa, com a cabeça fervendo. Não foi por causa do calor nordestino, mas de uma palestra do publicitário Walter Longo, que me fez repensar quase tudo o que fazemos no comércio cuiabano.
O varejo não está em crise. O que está acontecendo é uma mudança brutal na cabeça do consumidor. Como disse Longo: “Agora, assistimos a uma migração sem precedentes, mas ela é cognitiva, não geográfica.” Seu cliente não mudou de bairro — mudou dentro da própria cabeça. Ele quer respostas rápidas, soluções imediatas. E quem não perceber isso vai ficar para trás.
Nicholas Carr, jornalista, explica que estamos migrando a atividade neural do hipocampo (pensamento profundo) para o córtex pré-frontal (piloto automático). A revista The Economist estima que as distrações digitais custam US$ 650 bilhões por ano aos Estados Unidos. Aqui no Brasil, a conta também é pesada.
A saída? Um modelo de negócio mais leve. Longo foi direto: “O segredo do futuro não está em ter mais, e sim em ser mais leve.” Menos estoque, menos peso, mais flexibilidade. O cliente quer agilidade, e estoque enorme virou âncora.
No marketing, a virada é igualmente radical: “O futuro não está em atingir pessoas em massa, mas em compreender pessoas em frações.” Pessoas não são — pessoas estão. Tratar o cliente como ficha cadastral é coisa do passado.
E a cereja do bolo: “Gerir uma empresa daqui para frente significa entender como funcionam as pessoas, e não apenas o negócio.” A economista inglesa Dame Minouche Shafik resume bem: “No passado, empregos dependiam de músculos; agora, do cérebro; no futuro, vão depender do coração.”
Mas não dá para ignorar o presente: juros nas alturas, inadimplência que não dá trégua e um fenômeno que vem arrasando milhares de pessoas no país, apostas esportivas e jogos online passaram a disputar espaço no orçamento dos brasileiros, além do custo de capital corroendo margens. A realidade é dura e fingir que ela não existe é receita para o fracasso.
E é justamente aí que mora a oportunidade. Estoque enxuto não é só modernidade: é menos dinheiro parado pagando juros altos. Atendimento personalizado não é só marketing: é fidelizar quem já compra, mesmo com crédito restrito. Gestão com coração não é só empatia: é time engajado, que vende mais e gera indicações — o melhor remédio contra a queda de consumo.
E a inadimplência? A saída é usar tecnologia para analisar o perfil de crédito em tempo real, oferecer prazos que cabem no bolso e recuperar clientes com abordagem humana. Porque coração também se usa na hora de negociar.
Os lojistas que vão crescer não são os que ignoram os juros, são os que aprendem a dançar com eles. Margem apertada exige giro rápido. Capital caro exige criatividade. Cliente endividado exige oferta inteligente, não apenas desconto.
Como presidente da CDL Cuiabá, saio do evento convicto: nossos desafios são reais, mas nossas armas também. Temos tecnologia, conhecimento e, acima de tudo, um comércio que já provou que sabe renascer.
O varejo cuiabano vai ser mais leve, mais humano e mais esperto. Vai usar a crise como combustível para inovar.
Não tem mais volta: a cabeça do cliente já mudou. Os juros estão altos, a inadimplência existe, mas nossa capacidade de reinventar é maior. Agora é a nossa vez — e vamos sair dessa maiores do que entramos.
*Júnior Macagnam, empresário da moda e presidente da CDL Cuiabá
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