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O lugar que evitamos visitar: Nós mesmos!

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Por Soraya Medeiros

Vivemos em uma era de distrações milimetricamente desenhadas para nos afastar de nós mesmos. Entre o brilho das telas, a urgência dos compromissos e o ruído do excesso de informações, raramente nos permitimos um encontro silencioso com nós mesmos. O algoritmo e o ritmo frenético nos mantêm ocupados demais para que possamos nos notar. Evitar esse contato, porém, tem um custo invisível e alto: o sequestro da própria identidade e o afastamento de quem realmente somos.

O autoconhecimento costuma ser apresentado como um caminho rápido e romântico para a paz interior. A realidade, contudo, é menos confortável. Conhecer-se exige a coragem de atravessar territórios internos pouco visitados, onde se escondem dores antigas, lutos não elaborados e angústias frequentemente abafadas pela pressa cotidiana.

Fugimos desse encontro porque ele nos obriga a abandonar justificativas convenientes. Olhar para dentro significa reconhecer fragilidades, assumir erros e admitir limites que contrariam a imagem que construímos de nós mesmos para o mundo. É um exercício que confronta o ego e exige a maturidade de quem aceita ser humano, e não um personagem impecável.

Paradoxalmente, é nesse mesmo território sombreado que residem nossas maiores forças. As partes que tentamos esconder são, muitas vezes, as que guardam o maior potencial de transformação. Encarar a própria sombra é a condição necessária para compreender — e sustentar — a própria luz.

O psiquiatra Carl Jung sintetizou esse processo ao afirmar que “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”. O despertar, no entanto, raramente é imediato. Ele começa com o desconforto, passa pela resistência e só então alcança a aceitação — etapa essencial para qualquer mudança consistente.

Aceitar-se não significa justificar erros ou negar responsabilidades. Trata-se de compreender a própria história com mais lucidez e compaixão. É reconhecer que muitas decisões foram tomadas com os recursos emocionais que tínhamos à época. A imperfeição, nesse sentido, não representa uma falha no sistema, mas a nossa própria condição humana.

Quando esse processo se aprofunda, ocorre a ressignificação. Experiências antes vividas como fracassos passam a ser compreendidas como aprendizado e fundamento para escolhas mais conscientes no presente. O passado deixa de ser um peso para se tornar raiz.

Há também uma dimensão espiritual nesse percurso. Não a de um julgamento externo, mas a de uma reconciliação interior com aquilo que nos transcende. Conhecer-se torna-se um ato de fé: a crença de que somos maiores que nossos traumas, mais fortes que nossos medos e plenamente capazes de reconstruir trajetórias.

A verdade interior tem efeito libertador. Ela rompe com a dependência excessiva de aprovação, reduz a armadilha da comparação constante e devolve o senso de autoria sobre a própria vida.

Em tempos de ansiedade coletiva e identidades frágeis, talvez o maior gesto de rebeldia e coragem seja este: interromper a fuga e aceitar o convite para olhar para dentro. Nem sempre é um caminho confortável. Mas é, sem dúvida, o único capaz de conduzir a uma vida mais íntegra, consciente e verdadeiramente livre.

*Soraya Medeiros é jornalista.

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O varejo não quebrou, mas a cabeça do cliente mudou

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Voltei da Omni Varejo 2026, em João Pessoa, com a cabeça fervendo. Não foi por causa do calor nordestino, mas de uma palestra do publicitário Walter Longo, que me fez repensar quase tudo o que fazemos no comércio cuiabano.

O varejo não está em crise. O que está acontecendo é uma mudança brutal na cabeça do consumidor. Como disse Longo: “Agora, assistimos a uma migração sem precedentes, mas ela é cognitiva, não geográfica.” Seu cliente não mudou de bairro — mudou dentro da própria cabeça. Ele quer respostas rápidas, soluções imediatas. E quem não perceber isso vai ficar para trás.

Nicholas Carr, jornalista, explica que estamos migrando a atividade neural do hipocampo (pensamento profundo) para o córtex pré-frontal (piloto automático). A revista The Economist estima que as distrações digitais custam US$ 650 bilhões por ano aos Estados Unidos. Aqui no Brasil, a conta também é pesada.

A saída? Um modelo de negócio mais leve. Longo foi direto: “O segredo do futuro não está em ter mais, e sim em ser mais leve.” Menos estoque, menos peso, mais flexibilidade. O cliente quer agilidade, e estoque enorme virou âncora.

No marketing, a virada é igualmente radical: “O futuro não está em atingir pessoas em massa, mas em compreender pessoas em frações.” Pessoas não são — pessoas estão. Tratar o cliente como ficha cadastral é coisa do passado.

E a cereja do bolo: “Gerir uma empresa daqui para frente significa entender como funcionam as pessoas, e não apenas o negócio.” A economista inglesa Dame Minouche Shafik resume bem: “No passado, empregos dependiam de músculos; agora, do cérebro; no futuro, vão depender do coração.”

Mas não dá para ignorar o presente: juros nas alturas, inadimplência que não dá trégua e um fenômeno que vem arrasando milhares de pessoas no país, apostas esportivas e jogos online passaram a disputar espaço no orçamento dos brasileiros, além do custo de capital corroendo margens. A realidade é dura e fingir que ela não existe é receita para o fracasso.

E é justamente aí que mora a oportunidade. Estoque enxuto não é só modernidade: é menos dinheiro parado pagando juros altos. Atendimento personalizado não é só marketing: é fidelizar quem já compra, mesmo com crédito restrito. Gestão com coração não é só empatia: é time engajado, que vende mais e gera indicações — o melhor remédio contra a queda de consumo.

E a inadimplência? A saída é usar tecnologia para analisar o perfil de crédito em tempo real, oferecer prazos que cabem no bolso e recuperar clientes com abordagem humana. Porque coração também se usa na hora de negociar.

Os lojistas que vão crescer não são os que ignoram os juros, são os que aprendem a dançar com eles. Margem apertada exige giro rápido. Capital caro exige criatividade. Cliente endividado exige oferta inteligente, não apenas desconto.

Como presidente da CDL Cuiabá, saio do evento convicto: nossos desafios são reais, mas nossas armas também. Temos tecnologia, conhecimento e, acima de tudo, um comércio que já provou que sabe renascer.

O varejo cuiabano vai ser mais leve, mais humano e mais esperto. Vai usar a crise como combustível para inovar.

Não tem mais volta: a cabeça do cliente já mudou. Os juros estão altos, a inadimplência existe, mas nossa capacidade de reinventar é maior. Agora é a nossa vez — e vamos sair dessa maiores do que entramos.

*Júnior Macagnam, empresário da moda e presidente da CDL Cuiabá

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