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Safra recorde cobre consumo nacional, mas acende alerta contra superoferta

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Com 99,5% da área colhida no Rio Grande do Sul, o Brasil consolidou sua autossuficiência na produção de arroz para o ciclo atual. O volume total colhido no País atingiu 10,6 milhões de toneladas, quantidade suficiente para cobrir com folga o consumo interno nacional, estimado em cerca de 10,5 milhões de toneladas anuais. No entanto, o clima de otimismo com o encerramento dos trabalhos no campo divide espaço com a preocupação de produtores e indústrias em relação ao avanço das importações de arroz em um momento de ampla oferta interna.

O Rio Grande do Sul é o motor absoluto da orizicultura brasileira, sendo responsável por cerca de 70% de todo o arroz produzido no País. Segundo dados atualizados do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), as colheitadeiras já finalizaram os trabalhos em 888,2 mil hectares, de um total de 891,9 mil hectares plantados no estado.

Os trabalhos avançaram rapidamente nas últimas semanas, com várias regiões atingindo a totalidade da área colhida. O desempenho por região macroeconômica do estado mostra a consolidação da safra:

  • Zona Sul: 100% da área concluída (primeira região a fechar os trabalhos);

  • Planície Costeira Externa: 99,9%;

  • Campanha: 99,93%;

  • Planície Costeira Interna: 99,46%;

  • Fronteira Oeste: 99,25%;

  • Região Central: 99,21%.

Diante do cenário, a Divisão de Assistência Técnica e Extensão Rural do órgão gaúcho já considera os trabalhos de campo praticamente encerrados, restando apenas a consolidação final dos dados de produtividade por hectare.

Os números da atual safra confirmam a relevância estratégica do Brasil no mercado global de alimentos. Fora do continente asiático — que concentra os maiores produtores mundiais, como China e Índia —, o Brasil desponta como o maior produtor de arroz do planeta, figurando historicamente no Top 10 do ranking global do cereal.

De acordo com dados consolidados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o País exerce uma liderança folgada no bloco regional: responde sozinho por 37,4% de toda a produção de arroz da América Latina e do Caribe, além de liderar a produção dentro do Mercosul. O destaque brasileiro não decorre apenas da vasta área cultivada, mas sim dos ganhos constantes de produtividade nas lavouras sulistas.

Apesar dos números robustos que garantem a segurança alimentar do País, o setor orizícola acendeu o sinal de alerta. Entidades industriais, lideradas pelo Sindicato das Indústrias de Arroz de Santa Catarina (SindArroz-SC), apontam que a entrada adicional de arroz estrangeiro neste momento pode desequilibrar o mercado.

Segundo representantes do setor, a importação de arroz em períodos de colheita cheia e autossuficiência deprime os preços pagos ao produtor e compromete o escoamento da safra nacional. O argumento da indústria é de que a cadeia produtiva brasileira carrega um custo tributário, trabalhista e operacional muito superior ao de concorrentes estrangeiros, o que torna a competição desleal em momentos de excesso de oferta.

Embora defendam que a importação continue sendo uma ferramenta vital em momentos de catástrofes climáticas e quebras reais de safra para garantir o abastecimento da população, as entidades cobram que a compra de arroz de fora seja balizada por critérios exclusivamente técnicos e planejamento de longo prazo.

Como solução para mitigar os altos e baixos de preços que prejudicam tanto o agricultor na superoferta quanto o consumidor na escassez, o setor defende a criação de um planejamento integrado e multi-institucional. A proposta prevê a união de indústrias, produtores e órgãos públicos federais e estaduais para alinhar o volume de oferta ao consumo real do País.

Entre as medidas sugeridas, destaca-se o fortalecimento de políticas públicas por parte da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para orientar o planejamento agrícola. A ideia é usar subsídios e incentivos econômicos para estimular o produtor a diversificar suas áreas com outras culturas estratégicas quando o mercado de arroz estiver saturado. O objetivo final é construir um modelo econômico sustentável que garanta rentabilidade a quem produz, estabilidade para a indústria e preços justos nas gôndolas dos supermercados.

Fonte: Pensar Agro

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Trump taxa o Brasil por “trabalho escravo”, mas compra 30 vezes mais de “países suspeitos”

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Os Estados Unidos começaram a cobrar, nesta sexta-feira (24.07), uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros sob a justificativa de que o país não impediria de maneira efetiva a importação de mercadorias produzidas com trabalho escravo.

Para parte das exportações brasileiras, a nova tarifa será somada à sobretaxa de 25% (veja aqui) que entrou em vigor na quarta-feira (22), elevando o adicional a 37,5%. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a cobrança acumulada alcança setores como calçados, máquinas e equipamentos, incluindo maquinário agrícola, peças, vestuário e produtos químicos não farmacêuticos. Café e suco de laranja ficaram isentos das duas medidas, enquanto a celulose será atingida somente pelos 12,5%. A incidência final dependerá do código tarifário de cada mercadoria.

O argumento norte-americano, porém, esbarra nos próprios números e mostra que a decisão é eminentemente política. Segundo levantamento do Global Slavery Index, elaborado pela fundação Walk Free e apresentado ao G20, os Estados Unidos importam anualmente US$ 169,6 bilhões em mercadorias suspeitas de terem sido produzidas com trabalho forçado e nenhum desses países foi sobretaxado. No caso brasileiro, o montante é de US$ 5,6 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 28,5 bilhões, ou seja 30 vezes mais.

A classificação da fundação Walk Free não significa que todas essas mercadorias tenham sido comprovadamente produzidas por trabalhadores escravizados, mas mostra que o mercado norte-americano permanece como um dos principais destinos mundiais de bens provenientes dessas cadeias que se utilizam de mão de obra escravizada.

Entre as compras dos Estados Unidos classificadas como de risco estão US$ 107,6 bilhões em eletrônicos procedentes principalmente da China e da Malásia. Também aparecem US$ 52,4 bilhões em roupas produzidas em países como China, Vietnã, Bangladesh, Índia e Malásia. A lista inclui ainda pescados, madeira e produtos têxteis.

Outra incoerência: a nova cobrança não proíbe a entrada dessas mercadorias. Os produtos originados em cadeias apontadas como vulneráveis ao trabalho forçado poderão continuar chegando aos Estados Unidos desde que os importadores paguem o imposto adicional.

O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) que “investigou” o Brasil não formalizou uma acusação de que os produtos brasileiros estão sendo fabricados com trabalho escravo. Apenas frisou que inexiste uma proibição de importação considerada suficientemente abrangente, para impedir que mercadorias produzidas nessas condições em terceiros países entrem no Brasil, e daqui cheguem aos Estados Unidos .

Essa foi uma forma de justificar o injustificável, já que o Brasil possui uma estrutura própria de repressão ao trabalho análogo à escravidão. O artigo 149 do Código Penal enquadra como crime situações envolvendo trabalho forçado, jornada exaustiva, condições degradantes e restrição da liberdade por dívida. O país também mantém grupos móveis de fiscalização e um cadastro público de empregadores responsabilizados administrativamente, conhecido como Lista Suja do Trabalho Escravo.

Desde 1995, mais de 68 mil trabalhadores foram retirados de condições análogas à escravidão em mais de 8 mil ações fiscais, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Somente em 2025, foram resgatadas 2.772 pessoas, enquanto as fiscalizações resultaram no pagamento de aproximadamente R$ 9,4 milhões em verbas trabalhistas e rescisórias. A versão mais recente da Lista Suja foi atualizada em 14 de julho deste ano.

Esses números não significam que o problema esteja eliminado no território brasileiro. Eles demonstram, entretanto, que o país reconhece a existência das irregularidades, investiga denúncias, responsabiliza empregadores e retira trabalhadores das situações encontradas. O próprio relatório produzido pelo USTR registra manifestações apresentadas durante a investigação que destacaram a existência de uma estrutura legal e institucional consolidada no Brasil.

Outro ponto que relativiza a justificativa humanitária está no amplo conjunto de exceções definido pelos Estados Unidos. Ficaram protegidas da nova tarifa matérias-primas que possam provocar desabastecimento, produtos capazes de gerar impactos econômicos mais amplos e mercadorias que não possam ser produzidas em quantidade suficiente no território norte-americano.

A lista de exceções alcança itens de interesse direto do agronegócio, como determinados produtos de origem animal, sementes, insumos para fertilizantes e defensivos, couros, madeira, café solúvel sem aromatização e volumes de açúcar importados dentro das cotas estabelecidas. Na prática, a aplicação da medida será determinada não apenas pelo argumento relacionado ao trabalho forçado, mas também pela necessidade de preservar o abastecimento e os custos da economia americana.

Para o agro brasileiro, o impacto será desigual. Produtos incluídos nas exceções poderão continuar entrando sem a nova cobrança, enquanto os demais ficarão sujeitos aos 12,5%. Nos casos em que a tarifa se somar à sobretaxa de 25% estabelecida em outra investigação comercial, a cobrança nominal poderá alcançar 37,5%, dependendo da classificação aduaneira de cada mercadoria.

O momento escolhido para colocar a medida em vigor também chama atenção. A nova tarifa começou a valer exatamente quando terminou a cobrança global temporária de 10% criada anteriormente pelo governo norte-americano. Em fevereiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos havia derrubado as chamadas tarifas recíprocas, que variavam de 10% a 50%. Agora, Washington recorreu à Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 para recompor uma barreira de alcance semelhante sob outra fundamentação jurídica.

A coincidência entre o calendário eleitoral e o aumento das barreiras comerciais mostra que as tarifas norte-americanas deixaram de ser apenas um instrumento de política comercial e passaram a integrar o ambiente político brasileiro.

Fonte: Pensar Agro

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