Cultura
Fecham desfiles no RJ: Tuiuti, Vila Isabel, Grande Rio e Salgueiro
Cultura
Que outra forma melhor de começar o último dia de desfiles na Marquês de Sapucaí senão com a Pequena Valente de São de Cristóvão, a Paraíso do Tuiuti, que traz o enredo “Lonã Ifá Lukumi”. A amarelo-e-azul redescobre a conexão espiritual entre Brasil e Cuba, ao reverenciar a cultura dos Iorubás escravizados no país caribenho. Chamados pelos colonizadores de Lucumís, sua vertente religiosa também é praticada no nosso país.

Após a passagem da Tuiuti, vamos entender que a religiosidade se encontra com a música na Avenida, pois “macumba desde sempre se misturou com o samba”. Pelo menos, é o que diz um dos pais do samba, e é homenageado pela Unidos de Vila Isabel. “Macumbebê, Samborembá. Sonhei que um Sambista Sonhou a África” homenageia um dos maiores multiartista da história do Brasil, Heitor dos Prazeres participou da criação de duas das maiores agremiações do carnaval, a Estação Primeira de Mangueira e Portela. O carnavalesco Leonardo Bora explica que a Vila Isabel vai representar a vida de Heitor de forma inédita.
“Heitor foi um fundador, foi um inventor, grande mediador cultural, um aglutinador, um líder. É um enredo que exalta toda uma história da arte brasileira que, infelizmente, até pouco tempo a gente não estudou no colégio”.
Prepare-se! As arquibancadas do Sambódromo vão tremer com a Acadêmicos do Grande Rio, que ergue seu estandarte tricolor ao som dos manguezais. O enredo “Nação do Mangue”, inspirado no Manguebeat, movimento musical transformador liderado, entre outros, por Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livre S.A. Caracterizado pela fusão de ritmos regionais como o maracatu, frevo, coco, com outros mundiais como o rock, hip hop, funk e música eletrônica, ele reverenciava os manguezais, que na visão deles eram berço de movimentos de transformação social. Na avenida, a Grande Rio vai exaltar a fauna, flora, o maracatu e a identidade do povo que vive nas margens dos rios e mangues.
Por falar em transformação, vamos encerrar o dia com aquela que tornou o carnaval uma paixão para milhões de brasileiros ao mostrar o país na avenida. Somando sete conquistas, a professora Rosa Magalhães acumulou passagens por agremiações tradicionais, mas foi no Salgueiro onde ela começou sua trajetória.
A ideia da escola é resgatar o universo criativo deixado ao longo dos seus 50 anos de carnaval. O carnavalesco do Salgueiro, Jorge Silveira, explica que cada setor do enredo é como a ala de uma biblioteca, um acervo cultural e estético.
“A professora Rosa Magalhães é sem dúvida a maior artista que a passarela do samba já produziu. Ela é filha da revolução salgueirense encabeçada por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues e ela herda as características estéticas desses profissionais e vai construir seu próprio legado”.
Mesmo após sua morte em 2024, o legado de Rosa segue reverenciado por todos que transformaram o carnaval em uma paixão.
*Supervisão de Vitória Elizabeth
Cultura
90 anos Rádio Nacional: o legado do Repórter Esso no radiojornalismo
A imprensa é análise, o rádio é síntese. A imprensa dirige-se aos que sabem ler. O rádio fala, também, aos que são analfabetos”. Essas palavras são de Heron Domingues, jornalista que apresentou o Repórter Esso entre 1944 e 1962. O noticiário estreou na Rádio Nacional do Rio de Janeiro em agosto de 1941, com a cobertura da Segunda Guerra Mundial. Um ano antes, em março de 1940, a emissora fundada pelo grupo do jornal A Noite havia sido estatizada pelo presidente Getúlio Vargas. 

Numa época em que mais da metade da população brasileira era analfabeta, o rádio conseguiu ampliar o alcance da informação.
Para João Batista de Abreu, jornalista e professor da UFF, a Universidade Federal Fluminense, o Repórter Esso estabeleceu uma relação de confiança com os ouvintes.
“Eu acho que a ideia de credibilidade, talvez seja a coisa mais importante. Até hoje, a gente tem a expressão: deu no rádio. Se deu no rádio, é porque é verdade. Isso é marcante em todas as emissoras. Mas basicamente por conta do Repórter Esso”.
Com o slogan “o primeiro a dar as últimas”, fazendo referência às notícias, o Repórter Esso trouxe a ideia de agilidade e instantaneidade ao rádio, em quatro edições de cinco minutos ao longo do dia, além das edições extras. Antes dele, as informações vinham de recortes do que os jornais impressos já haviam anunciado. Com o Esso, surge uma linguagem própria de radiojornalismo. Marcelo Abud, pesquisador de rádios e professor do tema na Universidade FAAP em São Paulo, destaca Heron Domingues como referência.
“É muito interessante ouvir o manual do Repórter Esso na voz do Heron Domingues, porque ele vai dar essas noções, ele vai dizer, olha, você vai acordar as pessoas dando notícia, então você precisa passar isso com animação. Não pode ser algo que você fale monotonamente, porque senão ninguém vai querer te ouvir e tudo mais. É uma grande marca”.
Em 1948, Heron Domingues assumiu a Seção de Jornais Falados e Reportagens na Rádio Nacional, a primeira redação voltada ao radiojornalismo no país, com equipe formada por um chefe, quatro redatores e um colaborador do noticiário parlamentar.
Atualmente, a equipe da emissora é bem maior: tem quase 50 pessoas, entre repórteres, editores, produtores, locutores, coordenadores e gerência, que respondem a uma diretoria de jornalismo.
São produzidas três edições do radiojornal Repórter Nacional, os boletins Nacional Notícias, além dos programas jornalísticos Ritmo da Notícia e Alô, Alô Brasil.
Em 2007, a Rádio Nacional passou a ter caráter público e não mais estatal, com a criação da EBC, a Empresa Brasil de Comunicação.
A diretora de Jornalismo da EBC, Myrian Pereira, destaca o compromisso do Radiojornalismo com o interesse social e a cidadania.
“Hoje, como comunicação pública, a nossa missão, claro, é honrar essa tradição de credibilidade com olhar atento ao interesse social, aos direitos humanos e, eu diria, principalmente, à diversidade. O rádio evoluiu, mas a confiança do ouvinte no nosso compromisso com a verdade, com certeza, é o patrimônio da Rádio Nacional”.
O jornalismo da emissora de 90 anos segue com a essência da revolução trazida pelo Repórter Esso, testemunha ocular da história, com foco no interesse da sociedade brasileira e o compromisso com a busca da verdade, da precisão e da clareza, o respeito aos fatos, aos direitos humanos e a diversidade de opiniões.
*Com colaboração de Guilherme Strozzi e Raquel Júnia.
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