Mato Grosso
Produtores de pequena escala da Baixada Cuiabana conquistam selo e ampliam mercados em MT
Mato Grosso
Duas histórias de dedicação e empreendedorismo rural mostram como o Selo de Inspeção da Agricultura de Pequeno Porte (Siapp) tem transformado a realidade de produtores em Santo Antônio de Leverger. O selo nº 02, conquistado por Ludymilla Caramori, do Sítio Milagre da Vida, e o selo nº 37, obtido por Seo Rubens Pio, da Queijaria Canaã, são exemplos de como a regularização abre portas e fortalece a agricultura familiar no estado.
Atualmente, o Siapp conta com 39 agroindústrias registradas. O programa está previsto na Lei Estadual nº 12.387/24 e tem como objetivo reduzir entraves burocráticos, promover a inclusão produtiva e ampliar o acesso às políticas públicas, garantindo a qualidade e a segurança dos produtos, além de colaborar para o desenvolvimento econômico e social.
Para apoiar de perto os pequenos produtores, foi formada uma equipe técnica especializada, dedicada a acompanhar e orientar as agroindústrias de pequeno porte em todas as etapas de produção e formalização. O trabalho é fruto da união de esforços de diferentes instituições, como a Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (Seaf-MT), Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer) e Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea), garantindo que os produtores recebam orientação prática, suporte constante e segurança para crescer de forma sustentável.
No Sítio Milagre da Vida, a conquista do selo nº 02 marcou um divisor de águas para a família Caramori. O empreendimento é liderado por Ludymilla Caramori e conta com a atuação do filho, estudante de Engenharia Química da UFMT, Mateus Caramori, que aplica o conhecimento técnico na rotina da agroindústria.
“Todo o corpo de produção é muito importante. O engenheiro químico é basicamente um profissional da indústria: trabalha com processos, máquinas, controle de produção, expedição e programas em geral, áreas que fazem parte do nosso currículo. Para trabalhar com leite, precisei fazer aulas no curso de Tecnologias de Alimentos para adquirir o conhecimento formal”, explica Mateus.
A marca começou com a produção de queijo e ampliou, oferecendo também iogurte natural e iogurte de ameixa, e outros produtos. A marca já conquistou espaço em uma rede de supermercados e negocia com outras empresas para ampliar a presença nas gôndolas.
Mateus acompanhou de perto todo o processo até a chegada do selo. “Antes do selo, era tudo muito nebuloso. Perdemos muitas oportunidades e nos sentíamos limitados. Como lidamos com alimento, não podemos comercializar sem certificação, mas precisávamos começar. Estudamos, fomos atrás dos órgãos competentes, acompanhamos de perto, porque esse projeto precisava dar certo. Era nosso objetivo.”
Segundo ele, após a certificação, a expansão foi rápida. “Nossa produção hoje é praticamente toda designada. É muito difícil sobrar mercadoria e, quando isso acontece, transformamos o produto em alimento de maior durabilidade.”
Apesar dos prêmios, Mateus ressalta que o foco principal não são as medalhas. “As feiras são importantes pelo relacionamento de mercado. Os prêmios são como corações, é muito bom conquistar, mas nunca produzimos pensando em medalhas. Produzimos porque existe um público que precisa consumir esse produto. Temos famílias que só conseguem consumir nossos produtos. Para nós, isso é mais importante do que qualquer competição”, revelou.
Um importante diferencial do Sítio Milagre da Vida é a produção de leite A2A2, que, no caso da propriedade criam animais das raças Gir e Girolando. Esse tipo de leite possui uma proteína que facilita a digestão, permitindo que pessoas que não se adaptam ao leite convencional possam consumir produtos lácteos.
Vindos de Minas Gerais, estado referência na produção de laticínios, a família identificou uma oportunidade ao chegar em Mato Grosso. “Sentimos que precisava de mais produtores de queijo. Meus pais já sabiam que não adiantava começar e ir adaptando depois. Investir na genética dos animais foi essencial para oferecer algo diferente no mercado”, destaca Mateus. Com cerca de três anos de atuação, o empreendimento aposta na qualidade e na diferenciação para consolidar seu espaço. “Temos outros produtores de queijo e derivados, mas com nossas características somos únicos na região. Acredito que, nesse segmento, atualmente somos os únicos no estado.”
A 60 quilômetros de Santo Antônio de Leverger, no Sítio Nova Canaã, está a Queijaria Canaã LTDA, fruto da dedicação de Seo Rubens Pio, que conquistou o selo nº 37 do SIAPP a cerca de um mês. Natural de Goiás, ele começou ainda criança a trabalhar com leite junto com a família, e a paixão pela produção de leite e derivados o acompanha desde então.
Hoje, com vacas que produzem em média 250 litros de leite por dia, a matéria-prima está à porta da queijaria. O produto principal é o queijo meia cura, que passa por um período de maturação antes de ser comercializado.
“Desde criança aprendi a fazer queijo, mas estou há 15 anos fora do mercado. Passei a entregar leite e disse que só retornaria quando tivesse o registro. Enquanto ele não saiu, eu não comecei a produção. Quando comecei a mexer com leite, ainda criança, a gente fazia o creme, lá em Goiás. Vim para Mato Grosso em 1975, estou há 50 anos na região”, relembra.
Com o primeiro estoque maturado, o queijo meia cura da Canaã passa a ser comercializado oficialmente com o selo nº 37, garantindo segurança ao consumidor e ampliando as oportunidades de mercado.
Sobre o processo de obtenção do selo, ele destaca que não considerou burocrático. “Conforme minhas condições financeiras, fui adequando a estrutura. Alguns equipamentos eu já tinha e, mesmo sem o selo, já seguia as normas. O apoio técnico da Seaf e da Empaer foi muito importante”, ratificou.
A coordenadora de Agroindústria da Seaf, médica veterinária Camila Caexeta, destaca que histórias como essas demonstram o alcance do programa. “O Siapp foi criado para desburocratizar e dar oportunidade para o pequeno produtor. Nosso papel é orientar, acompanhar e garantir que essas agroindústrias atendam às exigências, mas de forma compatível com a realidade da agricultura familiar. Quando o produtor conquista o selo, ele amplia mercado, agrega valor ao produto e fortalece a economia local”, afirma.
Para mais informações sobre o Siapp e as agroindústrias de pequeno porte, acesse:
https://www.agriculturafamiliar.mt.gov.br/agroind%C3%BAstrias-de-pequeno-porte ou pelos contatos de e-mail: [email protected] e WhatsApp: (65) 98142-0093.
Fonte: Governo MT – MT
Mato Grosso
Mulheres da Cadeia Pública Feminina de Cáceres transformam vivências em versos
“Aqui, escrever não é tarefa, é respiro, é desabafo que sangra em palavras.” Os versos são de uma mulher privada de liberdade na Cadeia Pública Feminina de Cáceres e foram apresentados nesta quarta-feira (3) durante a capacitação virtual Práticas de Leitura no Sistema Prisional e Remição da Pena, promovida pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso, em parceria com a Secretaria de Estado de Educação (Seduc-MT) e a Secretaria de Estado de Justiça (Sejus-MT).
A professora Eliene Rocha Pereira apresentou as boas práticas do projeto “Remição pela Leitura: eu, leitora de mundo dentro dos muros”, desenvolvido junto com a professora Aline Aparecida Rocha. A iniciativa transforma os relatos de vida das detentas em poesia e, segundo Eliene, surpreendeu até as próprias participantes. “Esse trabalho mostrou que as meninas têm potencial para fazer as coisas. Quando eu mostrei o resultado para elas, foi uma satisfação muito grande ver que gostaram”, contou a professora durante a apresentação.
Inspiração e metodologia
O projeto nasceu inspirado na escritora Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo, que registrou em palavras a dureza de sua vida na favela. As detentas se identificaram com a trajetória da escritora a ponto de manifestarem interesse em ler o livro, desejo que ainda não foi possível atender.
O trabalho seguiu cinco etapas: apresentação do projeto e diálogo sobre a importância da escrita; leitura e reflexão sobre as obras de Carolina Maria de Jesus; produção de relatos sobre experiências de vida dentro e fora da prisão; transformação dos relatos em poesias com o apoio de inteligência artificial; e socialização dos poemas em eventos e murais pedagógicos.
Eliene explicou que organizou e corrigiu os textos produzidos pelas participantes, preservando os pensamentos e a voz de cada uma. “Eu dei uma organizada no texto, porque elas erravam muitas palavras, mas os pensamentos e a história delas foram mantidos”, disse.
A voz que não se cala
Um dos poemas apresentados, de autora identificada como E. S. Freitas, retrata com força a convivência no sistema prisional, a desconfiança, a solidão, as hierarquias invisíveis e, ao mesmo tempo, a resistência e o aprendizado. Em seus versos, a autora escreve sobre conhecer sotaques e culturas de diferentes estados, sobre não abaixar a cabeça e não perder a humanidade: “Essa é minha voz ecoando entre muros que tentam calar, mas não consegue.”
Para Eliene, o significado do projeto vai além da escrita. “Esse projeto quer mostrar que mesmo dentro dos muros da prisão existem histórias importantes que precisam ser contadas e ouvidas”, afirmou.
Sobre a capacitação
A capacitação Práticas de Leitura no Sistema Prisional e Remição da Pena é uma realização conjunta do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (GMF/TJMT), da Coordenadoria de Educação de Jovens e Adultos (Coeja/Seduc-MT) e do Núcleo de Educação no Sistema Penitenciário (NESP/Sejus-MT). A coordenação está a cargo do juiz auxiliar do GMF, Pierro de Faria Mendes.
O evento tem como objetivo capacitar professores, pedagogos e outros profissionais para a implementação de práticas de leitura no sistema prisional, em alinhamento com o Plano Nacional de Fomento à Leitura no Sistema Prisional e com a Resolução CNJ nº 391/2021.
Autor: Roberta Penha
Fotografo: Alair Ribeiro
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
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