Opinião
O Algoritmo da Perdição: como as redes sociais estão roubando a infância
Opinião
Por André Araújo Barcelos
A iniciativa deste texto nasceu de um incômodo muito concreto: o vídeo recente do influenciador Felcas sobre a adultização de crianças nas redes sociais me atravessou não só como cidadão, mas, sobretudo, como pai de três filhos. A partir daquela provocação, aproximei evidências, casos e marcos legais para sustentar uma tese simples e dura: não estamos diante de episódios aleatórios, e sim de um sistema técnico–econômico desenhado para capturar atenção, explorar vulnerabilidades do desenvolvimento infantil e transformar tempo de tela em lucro, ainda que isso custe a saúde mental e o futuro de uma geração.
As plataformas de redes sociais não “espelham” apenas o que crianças e adolescentes procuram; seus algoritmos aprendem padrões de interação e, por design, empurram conteúdos progressivamente mais intensos — sensacionalistas, sexualizados ou violentos — porque esse tipo de estímulo maximiza engajamento. A sequência é previsível: uma busca inocente por dança vira um feed saturado de performatividade corporal adulta; um clique curioso em “drama” deságua em vídeos que normalizam agressões; a inscrição em “comunidades” vira uma câmara de eco para ideologias extremas. A engenharia comportamental por trás desses sistemas — notificação intermitente, rolagem infinita, recompensas variáveis — foi calibrada para manter a criança conectada, não para protegê-la. E filtros etários ou “controles parentais” mal implementados oferecem uma sensação de segurança que o próprio mecanismo de recomendação contorna com facilidade.
A dimensão do dano já é mensurável. Compilações recentes indicam que 83% dos jovens brasileiros foram expostos a conteúdo violento ou discriminatório nas plataformas; 26% relataram sentir-se motivados a agredir após essa exposição; e, todos os dias, estatisticamente, 3,5 crianças e adolescentes se matam no país — um quadro cuja taxa cresceu em escala assustadora nas últimas duas décadas. Esses números não são anomalias estatísticas: eles se alinham a achados internacionais de que o uso intensivo de redes está associado ao dobro do risco de transtornos de saúde mental, especialmente quando ultrapassa algumas horas diárias. O que se observa no consultório, na escola e em casa — ansiedade, depressão, automutilação, distorção da autoimagem, redução de empatia e tolerância à frustração — casa com o que a ciência vem descrevendo e o cotidiano confirma.
Há, ainda, o ângulo jurídico. O nosso ordenamento não é cego a crimes digitais contra crianças e adolescentes: o Estatuto da Criança e do Adolescente tipifica o aliciamento on-line; a Lei 14.811/2024 criminaliza o cyberbullying e endurece a proteção; o Código Penal trata da corrupção de menores. Mas um fosso separa a letra da lei da realidade das plataformas. No mundo físico, um adulto que conduzisse menores a material sexualizado na porta de uma escola seria detido; no digital, cadeias algorítmicas que fazem isso em escala industrial continuam operando sob a blindagem do discurso da “neutralidade tecnológica” e de um modelo de negócios que externaliza o custo social para famílias, escolas e serviços de saúde. Quando questionadas, empresas recorrem a manuais de relações públicas: prometem autorregulação, anunciam investimentos em “safety”, deslocam a responsabilidade para os pais e, não raro, se ausentam do debate público nacional — tudo sem tocar na engrenagem que remunera o risco: o próprio algoritmo.
Os efeitos sociais de médio e longo prazo são graves. A erotização precoce rouba marcos de desenvolvimento, sabota a construção de autoestima e aumenta a vulnerabilidade a abusos. A normalização de violência treina respostas agressivas e deteriora a convivência. A hiperconectividade paradoxal promove isolamento: muitos seguidores, poucos amigos; muita performance, pouca intimidade. Ao escalar, isso corrói instituições — família, escola, comunidade — que dependem de atenção sustentada, empatia e cooperação. Também há um custo econômico: a explosão de casos de sofrimento psíquico na infância e adolescência atinge produtividade, sobrecarrega sistemas de saúde e adiciona camadas de vulnerabilidade a trajetórias de vida que poderiam ser plenas.
O que fazer, então? A resposta precisa combinar atitudes imediatas no lar, políticas educativas e regulações que alinhem incentivos. Em casa, não há substituto para regras claras: nada de acesso não supervisionado; adiamento real de redes sociais na infância e na pré-adolescência; rotina digital previsível e limitada; conversa franca e continuada sobre manipulação algorítmica; alternativas offline deliberadas — esporte, arte, leitura, convivência — que devolvam às crianças um repertório de prazer não mediado por telas. Na escola, educação midiática e algorítmica obrigatória — como funcionam feeds, por que “grátis” não é de graça, o que é design persuasivo —, protocolos para identificar sinais de sofrimento e parceria ativa com famílias. No plano público, verificação etária eficaz e auditável; transparência algorítmica com obrigação de relatórios de risco por faixa etária; vedação de práticas de design viciante dirigidas a menores; responsabilização administrativa e, em casos comprovados de dano, civil e penal de executivos e empresas; presença jurídica efetiva no Brasil para garantir cumprimento de medidas; e financiamento de capacidade instalada em saúde mental infantojuvenil, inclusive para tratamento de dependência digital e reabilitação de habilidades socioemocionais. No mercado, há espaço — e urgência — para tecnologia com “safety by design”: recomendação que priorize bem-estar, default de privacidade alto, metas de engajamento substituídas por métricas de qualidade de experiência para menores.
Nada disso é “pânico moral”. É prudência baseada em evidência e na experiência cotidiana de quem educa. Como pai de três crianças, não escrevo a partir de abstrações: escrevo do lugar de quem vê, nos detalhes do dia a dia, como a economia da atenção disputa — e muitas vezes vence — o tempo, a curiosidade e a afetividade dos nossos filhos. O vídeo do Felcas serviu de gatilho para organizar esse diagnóstico e reforçar uma convicção: se aceitarmos as redes como são, aceitaremos, por tabela, um desenho de infância que não nos serve. Se quisermos outro resultado, precisaremos mudar regras, hábitos e incentivos — começando em casa, expandindo para a escola e pressionando o Estado e as empresas a assumirem a sua parte. O problema é grande porque é sistêmico; a boa notícia é que ele também é redutível quando atacado em sistema. E o tempo de agir é agora, enquanto ainda podemos escolher que tipo de infância — e de futuro — estaremos dispostos a proteger.
André Araújo Barcelos é pai e advogado
Opinião
O varejo não quebrou, mas a cabeça do cliente mudou
Voltei da Omni Varejo 2026, em João Pessoa, com a cabeça fervendo. Não foi por causa do calor nordestino, mas de uma palestra do publicitário Walter Longo, que me fez repensar quase tudo o que fazemos no comércio cuiabano.
O varejo não está em crise. O que está acontecendo é uma mudança brutal na cabeça do consumidor. Como disse Longo: “Agora, assistimos a uma migração sem precedentes, mas ela é cognitiva, não geográfica.” Seu cliente não mudou de bairro — mudou dentro da própria cabeça. Ele quer respostas rápidas, soluções imediatas. E quem não perceber isso vai ficar para trás.
Nicholas Carr, jornalista, explica que estamos migrando a atividade neural do hipocampo (pensamento profundo) para o córtex pré-frontal (piloto automático). A revista The Economist estima que as distrações digitais custam US$ 650 bilhões por ano aos Estados Unidos. Aqui no Brasil, a conta também é pesada.
A saída? Um modelo de negócio mais leve. Longo foi direto: “O segredo do futuro não está em ter mais, e sim em ser mais leve.” Menos estoque, menos peso, mais flexibilidade. O cliente quer agilidade, e estoque enorme virou âncora.
No marketing, a virada é igualmente radical: “O futuro não está em atingir pessoas em massa, mas em compreender pessoas em frações.” Pessoas não são — pessoas estão. Tratar o cliente como ficha cadastral é coisa do passado.
E a cereja do bolo: “Gerir uma empresa daqui para frente significa entender como funcionam as pessoas, e não apenas o negócio.” A economista inglesa Dame Minouche Shafik resume bem: “No passado, empregos dependiam de músculos; agora, do cérebro; no futuro, vão depender do coração.”
Mas não dá para ignorar o presente: juros nas alturas, inadimplência que não dá trégua e um fenômeno que vem arrasando milhares de pessoas no país, apostas esportivas e jogos online passaram a disputar espaço no orçamento dos brasileiros, além do custo de capital corroendo margens. A realidade é dura e fingir que ela não existe é receita para o fracasso.
E é justamente aí que mora a oportunidade. Estoque enxuto não é só modernidade: é menos dinheiro parado pagando juros altos. Atendimento personalizado não é só marketing: é fidelizar quem já compra, mesmo com crédito restrito. Gestão com coração não é só empatia: é time engajado, que vende mais e gera indicações — o melhor remédio contra a queda de consumo.
E a inadimplência? A saída é usar tecnologia para analisar o perfil de crédito em tempo real, oferecer prazos que cabem no bolso e recuperar clientes com abordagem humana. Porque coração também se usa na hora de negociar.
Os lojistas que vão crescer não são os que ignoram os juros, são os que aprendem a dançar com eles. Margem apertada exige giro rápido. Capital caro exige criatividade. Cliente endividado exige oferta inteligente, não apenas desconto.
Como presidente da CDL Cuiabá, saio do evento convicto: nossos desafios são reais, mas nossas armas também. Temos tecnologia, conhecimento e, acima de tudo, um comércio que já provou que sabe renascer.
O varejo cuiabano vai ser mais leve, mais humano e mais esperto. Vai usar a crise como combustível para inovar.
Não tem mais volta: a cabeça do cliente já mudou. Os juros estão altos, a inadimplência existe, mas nossa capacidade de reinventar é maior. Agora é a nossa vez — e vamos sair dessa maiores do que entramos.
*Júnior Macagnam, empresário da moda e presidente da CDL Cuiabá
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