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Jeans, tênis e eternidade

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A Igreja Católica ganhou, no Dia da Independência do Brasil, seu primeiro santo millennial dos tempos da internet. Carlo Acutis, 15 anos, foi canonizado no domingo (7), na Praça São Pedro, em cerimônia presidida pelo Leão XIV. É o primeiro nascido nos anos 1990 a integrar o cânon da Igreja. Sinal para uma geração conectada. No altar, traz consigo a simplicidade de uma gola polo, mochila nas costas, tênis e calça jeans.

Carlo nasceu em 1991, em Londres, e cresceu em Milão. Amava Assis, cidade de São Francisco. Ia à missa, rezava o terço e falava de Deus com linguagem simples. Gostava de música, cinema, videogame e do Homem-Aranha. E programava. Apaixonado por tecnologia, aprendeu sozinho design e programação. Com 11 anos, já dominava ferramentas que muitos adultos achavam complexas. Em vez de buscar autopromoção ou diversão, criou um site para catalogar milagres eucarísticos reconhecidos pela Igreja. Levou a fé às telas sem perder o pé no real.

A santidade dele tem rosto cotidiano. Ajudar os pobres. Defender colegas alvo de bullying. Consolar amigos cujos pais viviam o divórcio. Entregar o próprio tênis e voltar descalço. Recusar novos sapatos quando já tinha um par. “Santo de casa” fez, sim, milagre: converteu primeiro os de casa. Sua devoção tocou a mãe, que voltou aos sacramentos e estudou teologia para responder às perguntas do filho.

Os milagres reconhecidos vieram do Brasil e de além-mar. Em Campo Grande (MS), a cura de um menino com malformação rara no pâncreas após oração e contato com uma relíquia. Na Itália, a recuperação de uma jovem que se acidentou de bicicleta, após súplica junto ao túmulo do rapaz, em Assis. A beatificação ocorreu 2020, pelo papa Francisco, e esses casos abriram a porta da canonização.

Carlo não inventou atalho para o céu; apontou a estrada. Na autoestrada da vida, caminho e velocidade importam. Ele escolheu a via rápida do amor concreto. Foi catequista aos 11 e fez a Primeira Eucaristia aos 7. Era amigo dos simples e discreto no uso do dinheiro, apesar da boa condição da família. Organizou um acervo digital de milagres para dizer o essencial: “Jesus está vivo na Eucaristia”. Partiu cedo, vítima de leucemia, e quis repousar em Assis. Morreu com fama de santidade, e atraiu dezenas de moradores de rua e pessoas em vulnerabilidade durante seu velório.

A lição cabe em um post e numa vida inteira: santidade é possível no ordinário. Fazer o simples, com amor. Estudar, trabalhar, ajudar, rezar. Cuidar do próximo antes do “próximo clique”. Carlo integra a tradição sem nostalgia. É ponte entre o Evangelho e a nuvem de dados. Um santo de jeans que mostra que a rede também pode pescar gente. Para quem navega sem rumo, ele lembra: a prioridade é o céu.

Em 12 de outubro de 2006, Carlo Acutis morreu. Era o dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, país que testemunharia seu primeiro milagre reconhecido pela Igreja. Outra forma de dizer que estamos conectados. Aliás, também é do Brasil a primeira igreja dedicada ao santo que tinha o notebook numa mão e terço noutra.

Chamam-no “padroeiro da internet” ou “influenciador de Deus”. O rótulo importa menos que o recado. Sua história desafia o mundo moderno e mostra que a santidade não ficou nos séculos passados, não saiu de moda. Já dizia um teólogo, o Evangelho é mais atual do que o jornal que será publicado amanhã.

Eduardo Cardoso é jornalista em Cuiabá.

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O varejo não quebrou, mas a cabeça do cliente mudou

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Voltei da Omni Varejo 2026, em João Pessoa, com a cabeça fervendo. Não foi por causa do calor nordestino, mas de uma palestra do publicitário Walter Longo, que me fez repensar quase tudo o que fazemos no comércio cuiabano.

O varejo não está em crise. O que está acontecendo é uma mudança brutal na cabeça do consumidor. Como disse Longo: “Agora, assistimos a uma migração sem precedentes, mas ela é cognitiva, não geográfica.” Seu cliente não mudou de bairro — mudou dentro da própria cabeça. Ele quer respostas rápidas, soluções imediatas. E quem não perceber isso vai ficar para trás.

Nicholas Carr, jornalista, explica que estamos migrando a atividade neural do hipocampo (pensamento profundo) para o córtex pré-frontal (piloto automático). A revista The Economist estima que as distrações digitais custam US$ 650 bilhões por ano aos Estados Unidos. Aqui no Brasil, a conta também é pesada.

A saída? Um modelo de negócio mais leve. Longo foi direto: “O segredo do futuro não está em ter mais, e sim em ser mais leve.” Menos estoque, menos peso, mais flexibilidade. O cliente quer agilidade, e estoque enorme virou âncora.

No marketing, a virada é igualmente radical: “O futuro não está em atingir pessoas em massa, mas em compreender pessoas em frações.” Pessoas não são — pessoas estão. Tratar o cliente como ficha cadastral é coisa do passado.

E a cereja do bolo: “Gerir uma empresa daqui para frente significa entender como funcionam as pessoas, e não apenas o negócio.” A economista inglesa Dame Minouche Shafik resume bem: “No passado, empregos dependiam de músculos; agora, do cérebro; no futuro, vão depender do coração.”

Mas não dá para ignorar o presente: juros nas alturas, inadimplência que não dá trégua e um fenômeno que vem arrasando milhares de pessoas no país, apostas esportivas e jogos online passaram a disputar espaço no orçamento dos brasileiros, além do custo de capital corroendo margens. A realidade é dura e fingir que ela não existe é receita para o fracasso.

E é justamente aí que mora a oportunidade. Estoque enxuto não é só modernidade: é menos dinheiro parado pagando juros altos. Atendimento personalizado não é só marketing: é fidelizar quem já compra, mesmo com crédito restrito. Gestão com coração não é só empatia: é time engajado, que vende mais e gera indicações — o melhor remédio contra a queda de consumo.

E a inadimplência? A saída é usar tecnologia para analisar o perfil de crédito em tempo real, oferecer prazos que cabem no bolso e recuperar clientes com abordagem humana. Porque coração também se usa na hora de negociar.

Os lojistas que vão crescer não são os que ignoram os juros, são os que aprendem a dançar com eles. Margem apertada exige giro rápido. Capital caro exige criatividade. Cliente endividado exige oferta inteligente, não apenas desconto.

Como presidente da CDL Cuiabá, saio do evento convicto: nossos desafios são reais, mas nossas armas também. Temos tecnologia, conhecimento e, acima de tudo, um comércio que já provou que sabe renascer.

O varejo cuiabano vai ser mais leve, mais humano e mais esperto. Vai usar a crise como combustível para inovar.

Não tem mais volta: a cabeça do cliente já mudou. Os juros estão altos, a inadimplência existe, mas nossa capacidade de reinventar é maior. Agora é a nossa vez — e vamos sair dessa maiores do que entramos.

*Júnior Macagnam, empresário da moda e presidente da CDL Cuiabá

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